[Opinião] Uma reflexão sobre a problemática de Eleanor & Park

Hoje o post é um pouco diferente aqui no blog. Trago aqui uma reflexão que é na verdade mais um desabafo.

Outro dia o skoob me mostrou como sugerido o livro Eleanor & Park da autora Rainbow Rowell e eu sinceramente não me lembrava de não ter marcado o livro como lido na minha estante por se tratar de uma leitura antiga. Entretanto, não me surpreende eu não ter vontade de tê-lo dentre minhas leituras lidas considerando o quão problemático esse livro é.

Me surpreende mais ainda ver como esse livro tem um conceito alto no site e que das diversas resenhas que vi, poucas apontam as problemáticas desse livro.

Para contexto, Eleanor & Pak é um livro do gênero Young Adult – YA, publicado no ano de 2012, da autora Rainbow Rowell. O livro na época de seu lançamento foi altamente aclamado por diversos outros autores famosos e pela crítica, tendo ganhado diversos prêmios. Um dos motivos da popularidade do livro é o fato dele trazer dois personagens principais fora do padrão comum de protagonistas, e ainda, tratar-se de um romance de dois adolescentes de origem extremamente diferentes, bem como abordar temas como aceitação da imagem da pessoa gorda e ainda, o bullying.

Ainda assim, o livro passou a ser questionado, principalmente entre os leitores de ascendência asiática, uma vez o seu teor altamente racista.

Em 2020 houve o anúncio de que a obra seria adaptada ao cinema, sendo anunciado que a própria Rainbow Rowell estaria escrevendo o roteiro, motivo pelo qual o livro voltou a ser altamente comentado, uma vez seu viés altamente problemático, em que se questionava se os mesmos problemas encontrados nos parágrafos do livro seriam encontrados na adaptação.

Ainda que eu tenha visto algumas postagens em português sobre o assunto, esse não fez tanto barulho por aqui quanto eu acredito que deveria, uma vez da gravidade da situação. Até porque independentemente do que o livro possa trazer de bom em qualquer parte que seja de seu conteúdo, isso não apaga o fato de que em suas outras partes o livro tem passagens extremamente racistas.  

Resolvi trazer o assunto para o meu blog pois toda vez que esse livro aparece em lista de recomendações de leituras, inclusive algumas listas que se tem como temática a leitura de representatividade, a sensação de incredulidade que tenho é muito grande.

Além disso, com a onda crescente dos crimes de ódio contra pessoas asiáticas frente a pandemia e a disseminação do vírus da COVID 19, nunca o momento foi tão propício para se discutir o assunto.

O problema com o livro Eleanor & Pak

Versando sobre a história de amor entre os personagens Eleanor e Park, temos aqui a retratação de um personagem principal que é coreano-americano. E é aqui que o problema se inicia:

1. Para início, temos que comentar o fato de que Park, o nome do personagem principal, trata-se de um sobrenome comum na Coréia, diferentemente de como ele é usado no livro. Mas enfim.

2. Grande parte da descrição do caráter de Park é ligado a questões raciais, sendo isso colocado como basicamente seu único e principal traço de personalidade. Filho de pai estadunidense e mãe coreana, Park é retratado como um menino feminino, que luta tae kwon do e que se destaca na matemática. Todos os clichês – preconceituosos, diga-se de passagem – de uma pessoa asiática, em uma única descrição.

3. Park tem a vivência com o racismo que pode ser dividido em duas partes: o racismo que ele sofre por parte das outras pessoas, (que no livro vem muito na forma de seu pai e de seus colegas de escola, e ainda, de Eleanor, a outra personagem principal) e o racismo interno, inerente ao fato do personagem se odiar por ser o que é.

3.1. Por diversas vezes no livro Eleanor, em seus pensamentos, chama Park de “mestiço idiota”, bem como o descreve como um “ser exótico”. Os discursos internos da personagem são extremamente racistas.

“Às vezes, ela se perguntava se o formato dos olhos dele afetava a forma como ele via as coisas. Essa devia ser provavelmente a ideia mais racista de todos os tempos. ”

Trecho retirado do livro Eleanor & Park da autora Rainbow Rowell

Quando o tom deixa de ser pejorativo e passa a ser uma tentativa de elogio, há então a fetichização do personagem por seus traços.

“– Quando olho pra você – ela disse, recostando-se nele –, não sei se te acho bonito porque você é coreano, mas não acho que é apesar disso. Só sei que te acho um gato. Tipo, muito gatinho, Park…”

Trecho retirado do livro Eleanor & Park da autora Rainbow Rowell

3.2. O pai de Park é descrito como um homem rigoroso, tendo este sido militar, bem no clichê do “homem rude e altamente masculino” (ou seja, o clássico homem machista), em que diversas vezes critica Park por ter herdado da mãe sua aparência física, os traços asiáticos, se referindo a Park como “afeminado”.

3.3. Steve, um dos personagens do livro e colega de escola dos personagens principais, é descrito no livro como o maior perpetuador do bullying que Park sofre por ser coreano-americano. O racismo de Steve é óbvio no livro em que por diversas vezes ele descreve os asiáticos como sendo todos iguais, fazendo piadinhas com as características físicas de Park e etc.

4. Grande parte do racismo internalizado de Park é voltado para a feminilidade, ou o fato de que ele é sempre caracterizado como afeminado, muito disso devido ás características que este herdou de sua mãe coreana, em que é descrito como sendo baixinho e de estrutura corporal pequena. Isso nada mais é do que a reprodução do clichê racista que existe no ocidente em SEMPRE descrever os homens do leste asiáticos como femininos.

Rowell tem ainda falas muito problemáticas no livro através de seus personagens como por ex. quando Park tenta convencer Eleanor de que não existe asiático bonito: “tudo que uma oriental tem de exótico faz o cara oriental parecer mulher”.

Na tradução para o português houve ainda uma certa adaptação do livro, em que em alguns trechos em que a autora comparava Park a uma menina foram traduzidos de forma a apaziguar isso, em que a palavra girl (menina) foi trocada por menino no livro, mas o livro original apresenta trechos como esse:

“She hadn’t told him that he was prettier than any girl, and that his skin was like sunshine with a suntan.”

Trecho retirado do livro Eleanor & Park da autora Rainbow Rowell

5. Além disso, a mãe de Park é retratada como uma mulher asiática em que cada clichê de estereótipo é preenchido. Ela é descrita no livro por se parecer uma boneca de porcelana chinesa, pequena e perfeita. Suas ações descritas são tremendamente estereotipadas no conceito da mulher asiática submissa e bem-comportada. A mãe de Park é alvo ainda de fetichização, algo extremamente comum – infelizmente – para com mulheres asiáticas.

“A diferença é que ela dizia: “Tô-qui!”. Porque, pelo visto, ela jamais deixaria de soar
como se tivesse acabado de chegar da Coreia. Às vezes, Park achava que a mãe mantinha o sotaque de propósito, porque o pai gostava.”.

Trecho retirado do livro Eleanor & Park da autora Rainbow Rowell

6. O livro ainda tem outra coisa que mostra como o fato de Park, filho de pai estadunidense e mãe coreana, se odiar por ser como é e por ser quem é, é altamente racista da parte da autora é o fato de que o irmão de Park, que apesar de ser filho do mesmo pai e mesma mãe, possui características físicas passáveis como de uma pessoa branca, é descrito de forma extremamente positiva na narrativa. Ele é alto, grande e atlético, “que lembra uma criança grande alemã ou polonesa”.

“Todas as mulheres da família eram baixas, e todos os homens, altos. Somente o DNA de Park perdera esse memorando de altura. Talvez os genes coreanos tivessem misturado tudo lá dentro. ”

Trecho retirado do livro Eleanor & Park da autora Rainbow Rowell

Esses são alguns dos exemplos de racismo presente no livro Eleanor & Park, mas ainda tem muitas outras coisas problemáticas no livro que se referem a outros assuntos. O livro em si é uma bagunça, ao meu ver.

O problema com a autora do livro, Rainbow Rowell

Apesar de ter sido questionada, a autora nunca de fato aceitou diretamente nem comentou as críticas que sofreu sobre esse assunto quanto ao seu livro. Ao ser questionada uma vez em uma entrevista do porquê Park ser coreano, ela simplesmente respondeu: “Porque Park é coreano”.

Em um post seu, em forma de blog, a autora justifica o motivo pelo qual Park é coreano. Rowell dá 3 motivos pelo qual decidiu em ter Park como coreano em seu livro, um mais aleatório que o outro. Mas ela elenca o principal como sendo o fato de seu pai ter sido militar e ter servido na Coréia, onde teria se apaixonado por uma menina coreana, o qual ele “deixou lá” quando voltou. Sendo essa inclusive sua inspiração para descrever como os pais de Park se conheceram. Basicamente ela não explica nada, só reforça a ideia de que Park é coreano “porque Park é coreano”.

A leitura desse post torna tudo mais decepcionante. Ele está em inglês a quem se interessar, você encontra ele AQUI.

Ao pesquisar para poder escrever esse texto, me deparei com esse artigo de autoria de Chantal Cheung para a Northeastern University Political Review chamado “The problem with Eleanor & Park” (O problema com Eleanor & Park). Vou postar um pouco o que ela escreveu sobre o tema, em tradução livre feita por mim, mas quem souber inglês, confere o texto todo que é super referenciado e de uma leitura muito interessante.

Rowell compartilhou que ela cresceu em um bairro “muito pobre, realmente branco”, e que sua escola secundária tinha muito poucos asiáticos. Consequentemente, ela teve pouca exposição ao que era ser um asiático-americano naquele contexto. Então, por que Rowell escolheu escrever um protagonista coreano? A própria Rowell admitiu que, na primeira vez em que recebeu essa pergunta, ela encolheu os ombros: “Eu escrevo [personagens] da maneira que os vejo, e geralmente nunca volto a pensar sobre o porquê“. Ela admite que pouco pensamento consciente foi feito inicialmente quanto à identidade de Park, bem como a todas as implicações potenciais associadas à sua escrita. (…). Se os autores não tiverem suas próprias experiências nas quais basear seus textos, eles deverão fazer uma pesquisa minuciosa para garantir que sua representação fictícia seja respeitosa e genuína. Esse tipo de pesquisa meticulosa e empática exige tempo e esforço. Quando leio Eleanor & Park, fica claro para mim que Rowell fazia muito pouca pesquisa, se é que havia alguma, sobre como é ser um americano do leste asiático. Ou, se o fez, optou por não incluí-lo.” Chantal Cheung

Retirado do artigo de autoria de Chantal Cheung para a Northeastern University Political Review chamado “The problem with Eleanor & Park” (O problema com Eleanor & Park)

Sempre que vemos um livro que possui uma representatividade que está sendo versada por um autor que NÃO faz parte da cultura que ali está sendo exposta, o mínimo que esperamos dele é PESQUISA, o que Rainbow Rowell – uma pessoa branca, não inserida na cultura coreana ou qualquer cultura asiática – ou não fez, ou se fez decidiu deixar de fora de seu livro toda e qualquer informação que possa ter adquirido dela.

O MAIOR problema na minha opinião sobre o livro é o fato de que ele aborda a questão racial de forma irresponsável. Não pode um autor branco ter um livro com um personagem asiático, preto, etc? Eu acredito que pode. Mas de forma que o faça de forma responsável.

Digo isso porque em MOMENTO ALGUM a autora faz uma CRÍTICA ao racismo referenciado no livro. Uma coisa é você abordar uma questão racial no seu livro e tê-lo escancarado em sua narrativa quando esta se desenvolve PARA DISCUTIR o tema, para que haja algo a se AGREGAR, coisa que não acontece em Eleanor & Park.

As questões raciais ficam ali expostas e são normalizadas no livro, ficando enterradas no meio do resto da narrativa e demais temas abordados. Não surpreendentemente nos deparamos então com diversas resenhas do livro que expressam: “li que o livro é racista pela forma como descreve Park e sua abordagem quanto a cultura coreana, porém o livro se destaca, pois, o romance prende o leitor”. Como se o racismo para com asiáticos, especialmente coreanos nesse caso – não fosse tão problemático pois o romance é bom?

“Eleanor & Park perpetua estereótipos e contribui para a fetichização dos asiáticos do Leste, além de retratar uma dinâmica de poder tóxico entre um casal inter-racial como exemplo de romance. O livro faz mais mal do que bem em termos de representação do Leste Asiático na mídia popular. A representação problemática pode ter implicações prejudiciais para aqueles que estão sendo deturpados, especialmente quando é comercializada como uma história de amor atraente para um público jovem e impressionável. ” – Chantal Cheung

Retirado do artigo de autoria de Chantal Cheung para a Northeastern University Political Review chamado “The problem with Eleanor & Park” (O problema com Eleanor & Park)

Além disso, um dos motivos pelo qual a maioria das pessoas, brancas ou não, que não são asiáticas, não conseguem por muitas vezes enxergar o racismo em Eleanor & Park é porque ele é sutil em muitas vezes. Algumas amenizadas pela tradução, como já comentei aqui. Isso porque, ele somente se escancara para aqueles que já passaram por esse tipo de situação e conseguem se identificar.Ainda mais quando percebemos que muitas das falas racistas presentes no livro são tão internalizadas no nosso dia-a-dia que as pessoas passam a não enxergar o quão erradas elas são.

Temos ainda o fator protagonismo. O fato de que um dos personagens com mais falas racistas do livro que é Eleanor, não o faz de forma escancarada. Isso porque ela mesma é definida como uma parte de uma minoria, ao ser descrita como uma personagem gorda, esquisita e um peixe fora d’água na escola.

A autora trouxe um personagem racializado, na forma de Park, um menino coreano-americano, mas em momento algum o personagem se refere a sua cultura como algo positivo. TODA referência que Park faz é em tom pejorativo. Que tipo de REPRESENTATIVIDADE isso traz?

Li enquanto fazia minha pesquisa, em alguns sites, que o livro foi relançado no Brasil em uma nova versão com uma tradução diferente. Não tive acesso a essa nova versão e nem o li, mas isso não importa muito para o assunto tratado aqui pois, mesmo que a nova edição amenize os termos racistas do livro, o original permanece, frente a inércia da autora quanto ao assunto. Assim sendo, o objetivo desse texto continua, que é o de trazer conhecimento para os leitores sobre um livro problemático que é altamente recomendado e indicado.

Acredito que o importante é sempre o conhecimento e a informação. Eu também li o livro quando era mais nova e apesar de ter ficado incomodada com algumas coisas do livro, não havia internalizado o que me incomodava e o porque. Inclusive havia gostado do livro quanto ao seu romance.

De certa forma, eu como descendente de japoneses, me sinto um pouco invasiva em fazer “textão” quanto ao livro pois não sou coreana. Porém, tendo ascendência asiática, com traços físicos evidentes, me identifico uma vez já ter ouvido grande parte, senão todas, ofensas que são deferidas no livro.

Muitas discussões estão em pauta quanto ao racismo para com pessoas asiáticas nos últimos dias em face dos acontecimentos do mundo, em que se torna cada vez maior os crimes de ódio contra pessoas asiáticas. Esse texto não tem como objetivo influir em um protagonismo asiático na luta contra o racismo, mas sim agregar força ao movimento, referindo-se a uma minoria que por muitas vezes é visto com outros olhos na sociedade branca, mas que passa sim pela discriminação, xenofobia, fetichização e hoje é vítima de violência física.  #StopAsianHate

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